Uma prática que tem se espalhado pela Região Metropolitana de Belo Horizonte chama atenção pelo risco que representa a quem cai no golpe: cartazes oferecendo empréstimo rápido, sem burocracia e sem comprovação de renda, têm sido fixados em postes e até dentro de ônibus do transporte público metropolitano.
Um desses cartazes foi flagrado num coletivo da linha 518R (Terminal Vilarinho / Cidade Industrial via Carlos Luz). Ao entrar em contato com o número anunciado, quem oferece o empréstimo propõe R$ 300 para pagamento de R$ 400 em sete dias — o equivalente a uma taxa de juros de 4,76% ao dia, ou 142,86% ao mês.
Taxa é muito acima da praticada por bancos
Para efeito de comparação, a taxa média de juros do empréstimo pessoal cobrada pelos principais bancos brasileiros não chega a 9% ao mês. Já no caso do cheque especial, a taxa média registrada recentemente ficou em torno de 8% ao mês — uma diferença enorme em relação ao que é cobrado por esse tipo de esquema informal.
O responsável pelo cadastro, identificado como estrangeiro, inicialmente evitou dar detalhes por telefone, preferindo seguir a negociação por mensagens. Ao ser questionado sobre a estrutura do negócio, admitiu que o dinheiro emprestado não é apenas dele, mas de um grupo maior de pessoas envolvidas na operação.
Cadastro exige print de rede social e vídeo assumindo dívida
Para conseguir o empréstimo, é solicitado o preenchimento de uma ficha de cadastro com endereço completo, além de um print do perfil no Instagram e um vídeo em que a pessoa assume a dívida — prática que reforça o caráter de intimidação usado por esses grupos para garantir o pagamento. A cobrança prevê ainda multa de R$ 20 por dia de atraso e exige pagamento até as 20h.
Segundo relato do responsável pelo esquema, o valor inicial oferecido costuma ser baixo justamente como forma de testar a confiança do tomador: pagamentos em dia nas primeiras cobranças abrem caminho para empréstimos maiores nas próximas rodadas.
Operação policial prendeu 14 suspeitos em maio
Em maio deste ano, a Polícia Civil prendeu 14 suspeitos — sendo nove colombianos e cinco brasileiros — durante a Operação Capital Coativo, deflagrada para desarticular um grupo de agiotas que atuava principalmente na Região Metropolitana de Belo Horizonte, com foco em Contagem.
O delegado responsável pelas investigações explicou que existem diferenças na forma de atuação entre os grupos criminosos. Segundo ele, integrantes colombianos costumam chegar ao Brasil já vinculados a uma organização estruturada, passando por uma espécie de hierarquia interna até assumirem posições de comando na cobrança das dívidas. Os juros diários cobrados por esses grupos, de acordo com o delegado, podem variar entre 6% e 20%.
Já os grupos formados por brasileiros costumam operar com menos integrantes, mas recorrem a métodos de cobrança consideravelmente mais violentos. O delegado relatou que esses grupos chegam a invadir residências das vítimas, empregar agressões físicas e armas de choque, além de intimidar familiares — incluindo crianças em creches e parentes idosos —, geralmente utilizando armas de fogo e motocicletas para fugir após as ações.
Cartaz foi retirado após denúncia
Procurada pela reportagem original, a Secretaria de Estado de Infraestrutura, Mobilidade e Parcerias (Seinfra) informou que não autoriza a afixação de cartazes ou qualquer material de divulgação no interior dos ônibus do sistema metropolitano sem autorização prévia, e que solicitou a remoção imediata do material assim que soube da ocorrência.
O Sindicato das Empresas de Transporte de Passageiros Metropolitano (Sintram) também se manifestou, esclarecendo que o cartaz foi afixado de forma irregular, sem qualquer vínculo com os canais oficiais do sistema de transporte público.
Golpes de agiotagem costumam prometer empréstimo rápido, sem burocracia, com juros muito acima do praticado por bancos (o dobro ou mais da taxa média de mercado). Exigência de fotos, vídeos assumindo dívida e prazos curtos de pagamento são sinais de alerta. Em caso de dúvida sobre uma oferta de empréstimo informal, o mais seguro é buscar instituições financeiras regulamentadas ou órgãos de defesa do consumidor antes de fechar qualquer negócio.
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