Uma história que parecia roteiro de filme de terror terminou em condenação por estelionato. Vanderley dos Santos Gomes, servidor público da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB), foi condenado a dois anos de reclusão após a Justiça concluir que ele amputou o próprio pé direito em uma tentativa de receber indenizações de seguros que somavam R$ 1,5 milhão.
O caso aconteceu na madrugada de 10 de agosto de 2019. Na época com 26 anos, Vanderley relatou ter sido vítima de um assalto em Cruz das Almas, no Recôncavo baiano. Segundo sua versão, foi abordado por dois homens, levado para uma área rural próxima ao distrito de Mercês, em São Gonçalo dos Campos, e teve o pé amputado sem qualquer motivo aparente, antes de ser abandonado no local.
A investigação, no entanto, revelou uma sequência de fatos incompatível com a história contada pelo servidor. Cerca de seis semanas antes do episódio, ele havia contratado quatro apólices de seguro de vida e acidentes pessoais junto a diferentes seguradoras — Allianz, Zurich, Tokio Marine e Sompo — totalizando R$ 1,5 milhão em caso de invalidez. O juiz João Batista Bonfim Dantas, da Vara Criminal de São Gonçalo dos Campos, considerou pouco crível que um servidor com salário reduzido por afastamento contratasse quatro seguros em tão curto espaço de tempo.
Perícias técnicas também pesaram contra a versão apresentada. Os laudos indicaram que a lesão não era compatível com um ataque violento de assaltantes, reforçando a suspeita de que a amputação havia sido provocada de forma planejada. Outro ponto que chamou atenção das autoridades foi a mochila do servidor, encontrada próxima ao local da amputação com diversos objetos em seu interior — circunstância considerada incompatível com a narrativa de roubo apresentada por Vanderley.
A primeira condenação foi proferida em 2024. A defesa recorreu, mas em 2025 o Tribunal de Justiça da Bahia manteve a decisão, com a 1ª Turma da Segunda Câmara Criminal destacando que o intervalo entre a contratação dos seguros e a lesão foi excessivamente reduzido para ser considerado mera coincidência. O recurso ao Superior Tribunal de Justiça também não foi admitido, e a condenação transitou em julgado.
Com a decisão definitiva, a pena privativa de liberdade foi substituída por medidas restritivas de direitos, incluindo 720 horas de prestação de serviços à comunidade e o pagamento de uma prestação pecuniária de R$ 7.590. O cumprimento da sentença teve início em maio deste ano.
Segundo dados da Confederação Nacional das Seguradoras (CNseg), 13,3% dos sinistros registrados em 2025 no Brasil foram considerados suspeitos, totalizando R$ 5,4 bilhões de um universo de R$ 41 bilhões movimentados pelo setor. Desse montante, cerca de R$ 1,1 bilhão foi efetivamente confirmado como fraude. As fraudes mais frequentes envolvem veículos, representando 34,2% dos casos. O caso de Vanderley, no entanto, é considerado inédito no histórico da Justiça brasileira — até então, havia registros de pessoas que amputaram um dedo para tentar receber seguro, mas nenhum caso envolvendo um pé inteiro e parte da perna.
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