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Berço da Vale, Itabira convive há mais de 80 anos com a mineração. A empresa adiou para 2053 o fim das minas na cidade, mas o município ainda depende da atividade para cerca de 80% da arrecadação. Ao mesmo tempo, moradores lidam com barragens em obras, poeira e a dúvida sobre o que restará quando o minério acabar.
O Só Notícias Online reuniu dados públicos, relatórios da própria mineradora e informações de órgãos oficiais para responder a uma pergunta que acompanha gerações de itabiranos: qual é o legado que a Vale deixa para a cidade onde nasceu?
Um prazo que muda a cada relatório
A data do fim da mineração em Itabira já mudou várias vezes. Em relatórios anteriores enviados ao mercado americano, a Vale apontava a exaustão das minas para 2028. Depois, a previsão passou para 2031 e, mais tarde, para 2041.
Em março de 2026, no relatório anual 20-F entregue à SEC, a mineradora informou que estendeu a vida útil do complexo até 2053. Segundo a empresa, avanços na pesquisa geológica e no processamento de minério de menor teor elevaram as reservas de cerca de 760 milhões para 1,15 bilhão de toneladas.
A extensão, porém, não significa mais produção. A própria Vale afirmou que não prevê aumento do volume anual em Itabira. Em 2025, o complexo produziu cerca de 25,2 milhões de toneladas, queda de quase 16% em relação ao ano anterior.
Uma cidade que depende de uma só empresa
A dependência é reconhecida pelo próprio poder público. Segundo a Prefeitura, cerca de 80% da arrecadação de Itabira está ligada à operação da Vale, seja pela Cfem, os royalties da mineração, seja pelo ICMS e por outros tributos movimentados pela atividade.
Quando a mineração oscila, a cidade sente. Em 2025, a Prefeitura publicou um decreto de contenção de gastos ao prever queda de cerca de 23% no ICMS, citando a interrupção das atividades da mina do Cauê e a perda de valor do minério.
O balanço fiscal confirmou a queda. A arrecadação total do município caiu de R$ 1,37 bilhão em 2024 para R$ 1,28 bilhão em 2025. Só a Cfem ficou em R$ 164,1 milhões, R$ 27,3 milhões abaixo do previsto.
Barragens: avanço nas obras, mas impacto nos bairros
Itabira já foi a cidade com o maior número de barragens a montante da Vale, o mesmo modelo das estruturas que se romperam em Mariana e Brumadinho. Das dez estruturas do município incluídas no programa de descaracterização, oito já foram eliminadas, segundo a empresa.
As duas restantes, os diques Minervino e Cordão Nova Vista, fazem parte do Sistema Pontal. No fim de outubro, a Agência Nacional de Mineração (ANM) retirou o nível de emergência do sistema, e a cidade deixou de ter estruturas da Vale nessa condição. Ainda assim, as obras no Dique Minervino só devem terminar em 2030.
As obras têm custo para quem mora perto. O Ministério Público de Minas Gerais apontou diversos impactos na população local causados pela descaracterização e pelas medidas adotadas após a elevação do nível de emergência. Em visita da Assembleia Legislativa, moradores relataram trincas em imóveis, falta de água e o medo de viver perto das estruturas.
Poeira: uma queixa antiga
A poeira de minério é uma das reclamações mais antigas dos itabiranos. Estudos acadêmicos apontam que algumas áreas de mineração ficam a cerca de 500 metros de zonas residenciais, e episódios de nuvens de poeira atingindo a cidade foram registrados pela imprensa local em diferentes anos.
O monitoramento da qualidade do ar é feito por estações automáticas mantidas pela própria Vale, com dados divulgados pelo portal ItabirAR, da Prefeitura. A empresa afirma adotar medidas de controle, como a aplicação de supressores de poeira em pilhas de minério e vias, e a umectação constante das estradas.
A incerteza é compartilhada por quem vive na cidade. "Não sabemos o que será de Itabira no futuro", diz Mariana, moradora do bairro Campestre.
Diversificação: o desafio que não sai do papel
Planos para preparar Itabira para o pós-mineração existem há anos. Em 2021, Prefeitura e Vale assinaram um acordo para o plano Itabira Sustentável, voltado à diversificação econômica. Projetos como um parque tecnológico e um aeroporto industrial também já foram anunciados.
Mesmo assim, a mudança na base econômica da cidade ainda é tímida. Um levantamento da imprensa regional sobre o Plano de Fechamento de Mina apresentado pela Vale apontou que o documento cumpre a exigência ambiental, mas não traz uma perspectiva clara de reconversão econômica para o município.
Para lideranças locais, os 12 anos a mais de mineração são uma oportunidade e um alerta. "Minério não dá duas safras", repetiu o prefeito em discurso recente, ao defender que a cidade reinvente sua economia antes que o recurso acabe.
O que diz a Vale
O Só Notícias Online enviou perguntas à assessoria de imprensa da Vale em [07/11], com prazo de resposta até [10/11], sobre a previsão de produção, a situação das barragens, as ações contra a poeira e os investimentos em diversificação econômica de Itabira.
Até a publicação desta reportagem, a empresa não respondeu aos questionamentos. O espaço segue aberto para manifestação.
Um legado ainda em construção
A Vale nasceu em Itabira em 1942 e transformou a cidade em um dos principais polos de mineração do país. Mais de oito décadas depois, o município tem uma das maiores receitas de Minas Gerais, mas também carrega a dependência, as marcas na paisagem e as preocupações de quem vive ao lado das minas.
Com o novo prazo de 2053, a pergunta deixa de ser quando o minério vai acabar e passa a ser o que será feito com esse tempo. A resposta vai definir se Itabira será lembrada como exemplo de transição bem-sucedida ou como mais uma cidade que ficou para trás quando a mineração foi embora.
Veja mais:
👉 Notícias de Itabira
👉 Notícias gerais
Fontes: Vale (relatório 20-F/SEC), Prefeitura de Itabira, Agência Nacional de Mineração (ANM), Ministério Público de Minas Gerais, Assembleia Legislativa de Minas Gerais, Diário do Comércio, O Fator, Itatiaia e DeFato